As embalagens de alimentos e bebidas poderão transferir para os produtos consumidos cerca de 1050 toneladas de micro e nanoplásticos por ano a nível mundial, correspondendo a uma exposição média estimada em cerca de 130 miligramas por pessoa e por ano.
As garrafas PET, as embalagens rígidas em PET e as embalagens flexíveis de polietileno estão entre os formatos com maior contribuição estimada.
As conclusões constam do estudo From Pack to Plate: A Global Assessment of Micro- and Nanoplastics Migrating from Food Packaging into Food, publicado em 2026 pela Earth Action, organização de investigação sediada em Lausanne, Suíça. O trabalho é da autoria de Marguerite Fauroux, Julien Boucher e Sarah Perreard e foi encomendado pela Innovation Alliance for a Global Plastics Treaty, que, de acordo com o relatório, não participou na definição da metodologia, seleção dos dados ou conclusões.
O estudo apresenta-se como a primeira avaliação global comparativa da migração de micro e nanoplásticos (MNP) a partir de diferentes formatos de embalagem alimentar. Para o efeito, os investigadores harmonizaram dados de mais de 20 estudos experimentais e analisaram sete tipos de embalagem, representativos de aproximadamente 66% do volume mundial de embalagens alimentares. Entre os formatos considerados encontram-se garrafas PET, embalagens flexíveis de PE, embalagens rígidas de PET, PP e PS e soluções multicamada.
Garrafas PET representam maior contributo
Para os sete formatos diretamente analisados, a investigação calcula uma transferência central de cerca de 692 toneladas de MNP por ano, num intervalo de incerteza entre 433 e 2.074 toneladas. A extrapolação para a totalidade do mercado mundial eleva a estimativa central para aproximadamente 1.050 toneladas anuais, com um intervalo entre 657 e 3.146 toneladas.
Apesar de estes volumes serem muito inferiores, em termos de massa, aos associados a grandes fontes ambientais de microplásticos, como o desgaste de pneus, têxteis sintéticos ou resíduos plásticos mal geridos, os autores destacam uma diferença: neste caso, as partículas passam diretamente da embalagem para alimentos e bebidas, sem a diluição que ocorre nos percursos ambientais.
A exposição média estimada, quando extrapolada para todo o mercado, ronda 130 mg por pessoa e por ano, podendo atingir várias centenas de miligramas em cenários de utilização mais intensiva e ultrapassar 1 grama em situações extremas. Em número de partículas, o relatório estima uma exposição que poderá variar entre centenas de milhões e vários milhares de milhões de partículas por pessoa anualmente, dependendo das dimensões consideradas.
As garrafas PET representam aproximadamente um terço da exposição estimada, com cerca de 292 toneladas por ano no cenário global utilizado na análise, equivalentes a aproximadamente 36 mg por pessoa. Seguem-se as embalagens rígidas de PET, com cerca de 155 toneladas, e as embalagens flexíveis de PE, com aproximadamente 139 toneladas. Os autores alertam, contudo, que estes resultados também podem refletir uma maior disponibilidade de estudos científicos sobre estes formatos face a outras soluções de embalagem.
Luz, calor e utilização influenciam a libertação de partículas
Uma das principais conclusões é que o tipo de polímero, por si só, não permite prever a libertação de micro e nanoplásticos. O desenho da embalagem, espessura, sistemas de fecho, contacto com o produto e condições de transporte, armazenamento e utilização podem ter um peso igual ou superior.
A exposição à luz e à radiação UV surge como o principal fator de amplificação identificado, podendo aumentar a libertação de partículas em uma a duas ordens de grandeza em determinados formatos. A abertura e fecho repetidos, a fricção entre componentes, o armazenamento prolongado e a exposição térmica, incluindo conteúdos quentes ou aquecimento no micro-ondas, também contribuem para a degradação e libertação de partículas.
Nas garrafas PET, por exemplo, o estudo identifica a irradiação como o mecanismo de maior impacto. Num cenário considerado de utilização normal, cerca de três quartos da geração estimada de MNP está relacionada com este processo. Para as embalagens flexíveis de PE e as embalagens rígidas em PET, a exposição à luz surge igualmente como o principal fator de agravamento.
A diferença entre cenários leva os investigadores a concluir que existe margem para reduzir a exposição através do design das embalagens e da gestão da cadeia de abastecimento, sem que a resposta tenha necessariamente de passar pela substituição generalizada de materiais.
Estudo não avalia risco para a saúde
O relatório distingue explicitamente exposição de risco. Os autores não realizam uma avaliação quantitativa dos efeitos dos micro e nanoplásticos sobre a saúde, considerando que ainda não existem relações dose-resposta suficientemente robustas, sobretudo no caso dos nanoplásticos.
O documento assinala, contudo, que a maioria das partículas associadas às embalagens analisadas se situa abaixo de 150 micrómetros e chama a atenção para a necessidade de avaliar conjuntamente a exposição às partículas e às substâncias químicas presentes nos materiais de contacto alimentar, incluindo substâncias adicionadas intencionalmente (IAS) e não intencionalmente adicionadas (NIAS).
Entre as recomendações dirigidas à indústria estão a redução da exposição das embalagens à radiação UV durante transporte, armazenamento e exposição no retalho, a revisão de componentes sujeitos a maior fricção, como tampas e sistemas de fecho, e a realização de testes que reproduzam condições reais de utilização, incluindo armazenamento prolongado, aquecimento e manuseamento repetido.
Para os decisores políticos, a Earth Action propõe que a avaliação das embalagens para contacto alimentar passe a considerar a emissão de micro e nanoplásticos juntamente com a migração química, avaliando o sistema de embalagem completo e não apenas o polímero utilizado. O relatório salienta, porém, que os dados disponíveis continuam a apresentar diferenças significativas entre métodos laboratoriais, limites de deteção e gamas de tamanho de partículas, sobretudo no domínio dos nanoplásticos.