A London Packaging Week explora o papel das embalagens na construção do valor percecionado dos produtos premium, através das perspetivas de Jamie Moore, da Positive Luxury; Jorge Aguilar, da PA Consulting; Gaby Granier, da Boundless Brand Design; e do premiado diretor de design Paul O’Brien. Em conjunto, analisam de que forma a confiança, a materialidade, a reputação, o design e a prova influenciam a avaliação que os consumidores fazem do valor.



À medida que a indústria das embalagens se prepara para a London Packaging Week 2026, as conversas começam cada vez mais a deslocar-se da aparência das embalagens para aquilo que realmente cria valor.

Nos segmentos do luxo, beleza, bebidas e grande consumo, a perceção está a passar de meros sinais para a confiança, a experiência e a prova.

O valor não é algo que um produto declara. É algo que o mercado conclui, em silêncio. E essa conclusão raramente é racional no momento em que se forma. Começa na proporção, na materialidade, na contenção e na disciplina de saber omitir, tanto quanto de acrescentar. Nas categorias premium, a perceção não segue a função. Chega antes dela. Enquadra-a e, depois, exige discretamente que a função justifique aquilo em que já se acreditou.

As marcas mais fortes compreendem que o valor não se constrói através de sinais mais ruidosos, mas pelo controlo rigoroso desses sinais. Cada detalhe reforça a credibilidade ou a desestabiliza. Nada é neutro. Cada superfície, peso, acabamento e gesto passa a integrar um juízo mais amplo, que acontece depressa e, muitas vezes, de forma subconsciente. E, uma vez formado esse juízo, raramente é revisto.

Estas são, cada vez mais, as questões que orientam a discussão na indústria das embalagens. Estão por detrás de muitas das conversas em torno do aprovisionamento, da inovação de materiais, da sustentabilidade e da estratégia de design. E continuarão a moldar o diálogo em eventos como a London Packaging Week 2026, onde marcas, designers, fornecedores e inovadores se reúnem para analisar o que, na prática, significa valor.

Onde o valor começa realmente

Jamie Moore Diretor Geral da Positive LuxuryJamie Moore, Diretor Geral da Positive LuxuryO valor percecionado não começa no momento da compra. Em muitos casos, começa muito antes de o produto chegar às mãos do consumidor. Jorge Aguilar, especialista em Estratégia de Crescimento da PA Consulting, afirma: “O valor percecionado começa na marca. A reputação molda as expectativas muito antes de alguém tocar num produto, e o design, o material e o contexto podem reforçar essa expectativa ou expor uma falha.”

Esta ideia desafia uma premissa há muito estabelecida: a de que os produtos são descobertos no momento. Cada vez mais, não é assim. Quando os consumidores têm contacto físico com algo, muitas vezes já construíram um enquadramento à sua volta através da publicidade, dos conteúdos nas redes sociais, dos sinais culturais, das recomendações e da memória acumulada da marca.

Jamie Moore, diretor-geral da Positive Luxury, aprofunda esta perspetiva ao colocar a confiança no centro da equação: “Na maioria dos casos, penso que começa pela reputação, porque é nesse ponto que o consumidor decide se confia no que está a ver.” A própria reputação evoluiu. Já não se constrói exclusivamente através da herança, do saber-fazer ou da visibilidade. É cada vez mais moldada por provas relativas ao impacto e à responsabilidade.

Como explica Jamie Moore: “A confiança conquista-se através da prova contextual da sustentabilidade: onde é feito, como é feito e que impacto gera.”

O design pode atrair o consumidor e estabelecer a primeira impressão, mas é apenas o sinal de abertura. Depois, o material e a dimensão tátil assumem o controlo, confirmando ou fragilizando discretamente aquilo que já se tinha pressuposto. O contexto enquadra o encontro desde o início, quer o produto seja experienciado em loja, online ou numa interação fugaz nas redes sociais.

Paul O’Brien, premiado diretor de design, chega a uma conclusão semelhante a partir de outra perspetiva: “O valor percecionado não começa num único lugar. Constrói-se através da combinação do design, do material, do contexto e da reputação, que trabalham em conjunto.”

Jorge Aguilar acrescenta: “As marcas mais fortes não são apenas descobertas na prateleira; já têm significado associado à sua marca.”

O valor surge quando estes sinais se alinham. Mas o alinhamento não deve ser confundido com harmonia. A harmonia sugere permanência. A perceção é muito menos estável do que isso. Um único sinal fraco pode fazer ruir todos os restantes, sem aviso.

Contenção, visibilidade e o risco silencioso de desaparecer

Durante anos, a contenção tornou-se uma das linguagens visuais dominantes do segmento premium. Reduzir a paleta. Simplificar os elementos gráficos. Eliminar o supérfluo. Dizer menos. Mas isto levanta uma questão cada vez mais relevante: será que a contenção cria mais valor do que a complexidade visível, ou corre o risco de se tornar invisível?

Como observa Gaby Granier, diretora associada de Estratégia da Boundless Brand Design: “A questão não é verdadeiramente qual cria mais valor; é qual é a escolha certa para uma marca, um consumidor e um contexto de categoria específicos.”

Num ambiente cada vez mais marcado pela rapidez do scroll e por uma atenção fragmentada, a contenção comporta um risco oculto: pode passar despercebida. Porém, a visibilidade, por si só, também não é valor.

Gaby Granier diz: “Sim, uma contenção excessiva corre o risco de tornar uma marca invisível, sobretudo num ambiente construído sobre o scroll rápido e o envolvimento superficial. Mas isso deve ser entendido como um desafio criativo, e não como uma razão para o evitar.”

Jorge Aguilar introduz outra camada de tensão: “Isto depende inteiramente da marca. Se a Apple lançasse subitamente algo visualmente caótico e demasiado complexo, poderia contradizer toda a sua narrativa de marca.”

Há também uma outra dimensão. Menos pode parecer mais premium, mas apenas quando os consumidores compreendem a intenção subjacente. Como explica Jamie Moore: “No luxo, menos pode, sem dúvida, ser mais, sobretudo quando é sustentado por qualidade e substância genuínas e executado com verdadeiro saber-fazer. Comunicar claramente o significado por detrás do menos pode ser uma oportunidade real para construir valor percecionado.”

Esta poderá ser a verdade mais desconfortável do design premium atual. O minimalismo tornou-se, ele próprio, uma tendência. E, quando a contenção se torna tendência, corre o risco de se transformar noutra forma de conformidade visual. A questão não é saber se se deve simplificar ou intensificar. É perceber se a decisão parece inevitável para a marca que está por detrás dela.

Quando o requinte começa a parecer familiar

Gaby Granier Boundless Brand Designs Associate Strategy DirectorGaby Granier, Boundless Brand Designs Associate Strategy DirectorO requinte é frequentemente tratado como prova de qualidade. Mas o requinte sem identidade depressa se transforma em repetição. Nas palavras de Gaby Granier: “Quando deixa de revelar algo sobre as crenças da marca que está por detrás.”

Existe hoje uma tensão crescente entre clareza e uniformidade. Em todas as categorias, os produtos recorrem cada vez mais à mesma linguagem visual de luxo discreto, paletas sóbrias e estéticas depuradas. O resultado é que muitos produtos parecem cuidadosamente concebidos, mas tornam-se cada vez mais difíceis de distinguir uns dos outros.

Gaby Granier é clara quanto à diferença: “O requinte que privilegia a simplicidade porque uma marca rejeita genuinamente a excessiva complexidade funciona. O requinte que parece retirado de uma pesquisa básica no Pinterest nunca parecerá único nem verdadeiramente premium.”

Jamie Moore acrescenta outra dimensão: “Quando o requinte não tem relevância direta nem ligação à marca e se torna um modelo, em vez de uma posição com significado e benefício para o consumidor.” Nesse momento, o requinte deixa de funcionar como autoria e passa a funcionar como imitação.

O momento da verdade é físico

Embora a perceção se construa através de múltiplos canais, a decisão final acontece muitas vezes num único momento: quando o produto é segurado na mão.

O design visual cria expectativa. O material, o peso, a textura e o acabamento validam-na ou desmontam-na discretamente.

Como explica Paul O’Brien: “O sinal mais poderoso é o toque, expresso através do material e do acabamento. O design visual pode definir expectativas, mas é o peso, a textura e o detalhe que, em última análise, justificam o preço.”

É aqui que a embalagem deixa de funcionar apenas como comunicação e se torna prova. Relevo, estampagem a quente, detalhe estrutural, peso, textura: não são escolhas decorativas. São sinais de intenção.

Jorge Aguilar reforça esta ideia de outro ângulo: “A narrativa capta a atenção, mas é a experiência física que determina se a relação perdura.”

À medida que as experiências digitais se tornam cada vez mais fluidas e fáceis de produzir, a interação física poderá ganhar ainda mais valor, precisamente porque não pode ser simulada. As histórias atraem os consumidores. Os objetos permanecem com eles.

Paul O'BrienPaul O'BrienAs questões sobre a forma como a experiência física cria valor são cada vez mais importantes em toda a indústria das embalagens, em particular à medida que as marcas procuram novas formas de fomentar riqueza, significado e memorabilidade sem complexidade desnecessária. Tornaram-se também temas centrais nas conversas mais amplas do setor, incluindo as que moldam o diálogo na London Packaging Week 2026. Basta olhar para o reconhecido programa de conferências para perceber essa mudança plenamente refletida.

Mas a própria experiência sensorial está a evoluir. Historicamente, o luxo assentava muitas vezes na abundância. Múltiplas camadas, estruturas ornamentadas e momentos elaborados de unboxing tornaram-se sinónimo de valor.

Jamie Moore identifica uma mudança clara: “A embalagem sempre teve a ver com o toque, mas verificou-se uma transição significativa para experiências plenamente imersivas em todo o setor do luxo.”

Cada vez mais, o valor é avaliado não apenas pelo que os consumidores experienciam no momento, mas também pelo que acontece depois. Paul O’Brien evidencia isto de forma particularmente clara no universo do whisky: “Uma garrafa esculpida, acondicionada numa caixa de apresentação em madeira com acabamentos em camadas, faz mais do que proteger o produto. Constrói uma narrativa de raridade e cuidado. O consumidor não está apenas a comprar o líquido, mas todo o teatro que o envolve.” Esse teatro não é separado do produto. É parte daquilo que se compra.

A prova tornou-se um material de design


Houve uma altura em que o premium dependia fortemente da sugestão. A herança implicava qualidade. O luxo implicava responsabilidade. Os consumidores aceitavam, sem grande questionamento, afirmações abrangentes e narrativas elegantes. Esse limiar mudou.

Como explica Jamie Moore: “O greenwashing, ou uma narrativa de sustentabilidade desalinhada da verdade ou sem evidência, pode destruir rapidamente a credibilidade.”

A implicação é importante, porque atualmente a credibilidade é menos vulnerável aos erros do que às contradições. Os consumidores podem perdoar imperfeições, mas perdoam muito menos quando os sinais deixam de estar alinhados.

Jamie Moore refere: “O mercado atual afastou-se de declarações genéricas sobre sustentabilidade ou filantropia e exige alegações acessíveis, fundamentadas e específicas.”

A embalagem já não se limita a expressar valor; espera-se, cada vez mais, que o prove. Materiais, reciclabilidade, sistemas de recarga, aprovisionamento e impacto mensurável fazem agora parte da própria história do produto. A prova ultrapassou a mera conformidade e está a tornar-se uma parte integrante da experiência premium.

A consistência poderá ser o sinal mais premium


A perceção premium é frequentemente discutida através do saber-fazer, da narrativa ou da estética. No entanto, um dos seus sinais mais fortes é muito menos visível: a consistênciJorge Aguilar of PA ConsultingJorge Aguilar, PA Consultinga. Como explica Jorge Aguilar: “Os consumidores podem perdoar erros, mas têm mais dificuldade em perdoar a imprevisibilidade.”

As marcas procuram frequentemente a surpresa e a novidade, mas surpresa e inconsistência não são a mesma coisa: uma cria entusiasmo, a outra gera dúvida. Jorge Aguilar acrescenta: “As marcas que oscilam entre experiências, mensagens ou padrões perdem a confiança rapidamente.”

A fiabilidade raramente tem o glamour da inovação, mas a confiança constrói-se através da repetição, e não da reinvenção. Os consumidores podem não reparar conscientemente na consistência quando ela existe, mas notam a sua ausência.

O valor é aquilo que perdura

O erro está em pensar que o valor é algo que as marcas criam e os consumidores recebem. Está mais próximo de um acordo do que de uma transação: o design molda a expectativa, o material confirma a intenção, a história cria significado, a experiência valida a crença e a prova sustenta a confiança.

Jamie Moore resume tudo num único princípio: “Provas, não promessas”, porque as promessas pedem aos consumidores que acreditem, enquanto as provas permitem-lhes fazê-lo. Em última análise, o valor não é definido pelo que um produto diz sobre si próprio, mas por aquilo que permanece quando o teatro termina.