O mercado global do luxo atingiu 1,4 biliões de euros em 2025 e deverá manter-se estável em 2026, depois de um período marcado por instabilidade económica, mudanças no consumo e diferenças acentuadas entre regiões.

A conclusão consta da mais recente análise da Bain & Company e da associação italiana Altagamma.

O estudo identifica uma alteração progressiva nos fatores que influenciam o setor: o crescimento do consumo associado a viagens, restauração e lazer; a utilização crescente de inteligência artificial na pesquisa e comparação de produtos; a evolução distinta dos principais mercados; e uma maior procura por autenticidade, personalização e bem-estar.

Segundo a Bain & Company, os Estados Unidos lideram atualmente o crescimento do mercado mundial do luxo, enquanto a recuperação na China permanece gradual e a Europa continua condicionada pela redução do turismo internacional e pelo contexto geopolítico.

Em 2025, o mercado global de luxo atingiu 1,4 biliões de euros. Para 2026, a previsão aponta para uma estabilização, num cenário em que as categorias e os mercados apresentam desempenhos diferentes.

“O mercado do luxo está a estabilizar, mas isso não significa um regresso ao passado. Está a emergir um novo ciclo, em que os consumidores procuram significado, relevância e experiências, mais do que apenas produtos”, afirma Cira Cuberes, senior partner da Bain & Company.

Estados Unidos crescem, Europa enfrenta maior pressão

O primeiro semestre de 2026 revelou uma evolução desigual entre regiões. Nos Estados Unidos, o crescimento é impulsionado pelas marcas locais, pelos consumidores com menos de 35 anos e pelo aumento do consumo entre segmentos de classe média-alta, segundo o estudo.

Na China, a recuperação mantém-se moderada. As vendas online de produtos de luxo terão crescido entre 25% e 35% no primeiro trimestre de 2026, com o vestuário a recuperar mais rapidamente do que os artigos em pele. A Bain associa esta evolução a uma preferência crescente por produtos relacionados com expressão pessoal, em vez de apenas estatuto social.

Na Europa, a procura foi afetada pela quebra do turismo internacional. O estudo aponta para uma redução de cerca de 20% nas despesas de turistas internacionais em fevereiro, num contexto influenciado pela instabilidade geopolítica e pelo conflito no Médio Oriente. Ainda assim, os dados do segundo trimestre indicam uma recuperação gradual.

De acordo com a análise, cerca de 60% das marcas de luxo registaram resultados superiores aos do mesmo período do ano anterior.

Inteligência artificial entra na jornada de compra

A inteligência artificial está a ganhar espaço na forma como os consumidores procuram informação, descobrem produtos e comparam opções antes de uma compra. Cerca de metade dos consumidores já utiliza ferramentas de IA durante a jornada de compra, refere o estudo.

Entre estes utilizadores, um em cada quatro recorre à inteligência artificial para descobrir marcas e produtos, enquanto dois em cada três a utiliza para comparar alternativas antes da decisão final.

Para a Bain, esta alteração exige que as marcas adaptem a sua presença digital a novos canais de descoberta e recomendação, uma vez que a pesquisa de produtos deixa de depender apenas de motores de busca, redes sociais ou plataformas de comércio eletrónico.

Experiências crescem acima dos bens de luxo

O consumo de experiências de luxo está a crescer a um ritmo 1,5 vezes superior ao dos bens de luxo tradicionais. Hotelaria, aviação privada, iates, cruzeiros e restauração de gama alta estão entre as categorias com maior resiliência, impulsionadas pela procura por personalização, bem-estar e exclusividade.

As reservas em experiências imersivas nas áreas da restauração, lazer e entretenimento cresceram 30% face ao ano anterior, enquanto as viagens para destinos menos convencionais aumentaram cerca de 20%, segundo os dados divulgados.

A procura por experiências mais ligadas à autenticidade local, ao contacto cultural e ao chamado slow travel é apontada como uma das tendências relevantes. O estudo destaca também o crescimento das viagens multigeracionais, num contexto em que cerca de metade dos consumidores da Geração Z afirma que as preferências de marca são influenciadas pelos pais.

Joalharia mantém desempenho mais robusto

Entre as categorias de produto, a joalharia continua a apresentar um desempenho mais consistente. Vestuário, óculos e fragrâncias mantêm igualmente uma evolução positiva, enquanto cosmética, calçado e artigos em pele permanecem sob maior pressão, apesar de sinais de recuperação gradual.

O mercado de segunda mão também reforça a sua relevância. Cerca de metade dos consumidores considera produtos usados antes de adquirir artigos novos, enquanto as pesquisas online por malas vintage mais do que duplicaram face ao ano anterior.

O estudo refere ainda o aumento da associação entre marcas de luxo e desporto. Mais de 80% do valor do mercado mundial do luxo corresponde a marcas que desenvolveram iniciativas de patrocínio desportivo nos últimos 12 meses.

“Os consumidores continuam interessados no luxo, mas tornaram-se muito mais exigentes”, afirmou Cira Cuberes. “Mais de 70% dos clientes que abandonaram o setor do luxo pretendem regressar, mas não necessariamente às mesmas marcas. O desafio passa por voltar a conquistar relevância junto destes consumidores e também nos novos ecossistemas de inteligência artificial, onde cada vez mais começam as decisões de compra.”

A Bain & Company e a Altagamma concluem que o setor entra numa fase de crescimento mais moderado, marcada pela importância crescente das experiências, da revenda, da relevância cultural e dos novos canais digitais de descoberta e decisão de compra.