A taxa de recolha de embalagens de vidro para reciclagem atingiu 82,2% na União Europeia em 2024, o valor mais elevado registado até agora pela iniciativa Close the Glass Loop.

Em Portugal, a taxa chegou aos 61%, igualmente um máximo histórico, embora permaneça abaixo da média europeia.

Os dados, divulgados pela plataforma europeia que reúne diferentes intervenientes da cadeia de valor do vidro de embalagem, mostram uma nova subida face aos 80,8% registados em 2023. Mais de quatro quintos das embalagens de vidro colocadas no mercado europeu foram, assim, recolhidas com destino à reciclagem.

A Close the Glass Loop destaca o peso dos sistemas municipais neste resultado. Cerca de 87% do vidro recolhido tem origem nos sistemas municipais de gestão de resíduos, reforçando o papel das autarquias na disponibilização de matéria-prima secundária para a indústria.

“As autoridades locais não são apenas responsáveis pela gestão dos resíduos municipais, estão também a garantir o fornecimento de matérias-primas secundárias à economia circular, e as embalagens de vidro são um forte exemplo disso”, afirmou Françoise Bonnet, secretária-geral da ACR+, Association of Cities and Regions for Sustainable Resource Management. Para Bonnet, reduzir a diferença que ainda separa vários países das taxas de recolha mais elevadas exigirá uma maior articulação entre municípios e cadeias de valor industriais.

Portugal chega aos 61%

Em Portugal, a taxa de recolha de vidro para reciclagem alcançou 61% em 2024, o valor mais elevado de sempre e mais 12 pontos percentuais do que os 49% registados em 2020, de acordo com a Plataforma Vidro+.

A evolução confirma uma melhoria que já vinha a ser observada. Em 2023, Portugal tinha registado um aumento de 12,6% na quantidade total de vidro recolhida face ao ano anterior, superando o crescimento das embalagens colocadas no mercado. A taxa de recolha situava-se então em cerca de 57%.

Apesar dos progressos, Portugal continua entre os países onde existe maior margem para aumentar a recolha. A Plataforma Vidro+, criada em 2022 e integrada na estratégia europeia Close the Glass Loop, estabeleceu como objetivo recolher para reciclagem 90% das embalagens de vidro colocadas no mercado nacional até 2030.

Nuno Vieira, coordenador da Plataforma Vidro+, considera que os números refletem “o esforço conjunto de toda a cadeia de valor do vidro (indústria, distribuição, municípios, sistemas de gestão de resíduos e cidadãos) e demonstram que é possível aumentar a reciclagem quando há colaboração e iniciativas concretas no terreno”.

Entre as áreas consideradas prioritárias encontra-se o canal HORECA. A plataforma tem vindo a desenvolver projetos dirigidos à hotelaria e restauração, incluindo iniciativas de recolha dedicada e baldeamento assistido. No Algarve, por exemplo, uma ação com a Algar abrange estabelecimentos de Aljezur, Castro Marim, Lagoa, Tavira e Vila do Bispo, promovendo a adesão à recolha seletiva porta-a-porta.

Em julho, já depois da divulgação dos dados europeus, o Advisory Board da Vidro+ voltou a identificar a expansão dos projetos de baldeamento assistido no HORECA como uma das medidas a desenvolver para aumentar a quantidade de vidro recolhida.

Recolher não significa necessariamente reciclar

Os valores da Close the Glass Loop medem a recolha para reciclagem, um indicador que não deve ser confundido com a taxa de reciclagem efetiva.

Os últimos dados publicados pela Agência Portuguesa do Ambiente indicam que a taxa de reciclagem de resíduos de embalagens de vidro em Portugal foi de 55,9% em 2023, abaixo da meta de 60% então aplicável. A APA ainda não apresenta, no Relatório do Estado do Ambiente, uma taxa de reciclagem de vidro para 2024 comparável com o valor nacional de recolha agora divulgado pela Close the Glass Loop e pela Vidro+.

Portugal notificou, entretanto, a Comissão Europeia da intenção de utilizar a possibilidade de prorrogação das metas previstas para 2025. A Comissão não apresentou objeções e, para o vidro, a meta nacional aplicável em 2025 passou a ser de 65%. Para 2030, a legislação estabelece uma taxa mínima de reciclagem de 75% dos resíduos de embalagens de vidro.

Circularidade depende também da qualidade do vidro recolhido

A Close the Glass Loop estima que cerca de 85% do vidro de embalagem recolhido seja efetivamente reciclado em circuito fechado, regressando à produção de novas garrafas e frascos. A plataforma chama, por isso, a atenção não apenas para o aumento das quantidades recolhidas, mas também para a qualidade do material que chega às instalações de tratamento.

“Embora aumentar os volumes de recolha seja essencial, isso tem de ser acompanhado por uma forte atenção à qualidade da recolha e à reciclabilidade das embalagens de vidro, para maximizar a quantidade de vidro que pode regressar à produção de novos recipientes”, afirmou René Schroeder, secretário-geral da FERVER – European Glass Recyclers’ Federation.

A evolução futura deverá também ser influenciada pelos critérios europeus de design para reciclagem que estão a ser preparados no âmbito do CEN, tendo em vista a aplicação do Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens.

Para Portugal, a subida para 61% representa uma recuperação significativa face aos últimos anos, mas mantém o país perante um esforço considerável até 2030. O desafio passa agora por transformar o aumento da recolha em maior disponibilidade de casco de vidro de qualidade para a produção de novas embalagens e aproximar os resultados nacionais das metas europeias e dos objetivos assumidos pela própria cadeia de valor.